Conheça a estilista Liz Santos, finalista do Desafio Sou de Algodão + Casa de Criadores com peças que misturam o sci-fi e a cultura amazônica

A paraense de 30 anos nos mostra uma moda para além do óbvio e conta mais do seu background e como isso influencia o seu trabalho

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Quando pensamos o que é a moda brasileira, as opções são infinitas – da moda casual carioca, as cores vibrantes baianas e a alfaiataria paulista. Na região Norte, existe, sim, um forte apelo ao artesanato e aos códigos ancestrais, mas também há outras identidades surgindo na moda autoral brasileira, e a paraense Liz Santos fundou sua marca a partir de narrativas distintas que, juntas, fazem todo o sentido. 

Nascida em Belém, Liz sempre esteve imersa em sua cultura local e vê como uma de suas maiores referências as histórias, música, dança, texturas e vivências do povo amazônico. Ela também cresceu ligada ao mundo da ficção científica, se apaixonando por animes e filmes que exploram futuros distópicos e tecnologias. Foi durante a faculdade de Moda na Universidade da Amazônia que viu a possibilidade de misturar sua identidade nortista com elementos do sci-fi, do cyberpunk e de uma estética mais urbana. “Acho que a construção da minha marca aconteceu muito naturalmente porque é um reflexo de quem realmente sou e das coisas que sempre me atravessaram”, conta a estilista. 

Questionada sobre profissionais que a influenciam, Liz menciona a admiração pelo estilista paraense André Lima: “Eu me inspiro muito em figuras que ultrapassam os limites tradicionais da moda e usam o corpo, a performance e a identidade como ferramentas de expressão”. O artista australiano Leigh Bowery também é um exemplo para ela a partir de como o seu trabalho na moda, performance e transformação do corpo rompeu padrões de gênero e beleza, além da drag queen Divine, um dos grandes ícones queer da cultura pop. “São duas referências que mudaram a forma como penso a moda. Para mim, vestir também envolve questionar, e principalmente provocar e construir novas possibilidades de identidade”, enfatiza. 

Foi com esse mar de referências que, no seu Trabalho de Conclusão de Curso, surgiu efetivamente a união entre as partes que moldam a identidade de Liz e sua visão sobre uma Amazônia futurista, com a coleção Amazônia Neo Cabana. Liz explica que quer pensar em uma Amazônia que cria, que resiste e que também imagina o próprio futuro, com tudo isso atravessado por sua própria vivência como uma travesti da periferia de Belém: “Acho que, no fim, eu faço moda para contar histórias que partem do lugar onde vivo e de quem sou. É uma forma de mostrar que a Amazônia também pode ser futurista, tecnológica e contemporânea, sem precisar abrir mão da nossa ancestralidade!”.

Coleção Simulação Amazônida (Foto: Kauê Santos)
Coleção Simulação Amazônida (Foto: Kauê Santos)
Coleção Simulação Amazônida (Foto: Kauê Santos)

Um talento em ascensão 

Apesar de ter se formado há menos de um ano, o trabalho de Liz já lhe rendeu o segundo lugar no concurso “Novos” do Dragão Fashion Brasil. Hoje, ela é uma das finalistas da 4ª edição do Desafio Sou de Algodão + Casa de Criadores. Para isso, sua rede de apoio foi crucial: “Como uma travesti, nem sempre temos a sorte de nascer em uma família que nos acolhe. Muitas vezes, a família que sustenta a nossa vida é uma que construímos ao longo do caminho”, relata a paraense, complementando que, ao ser expulsa de casa aos 17 anos, algumas amigas trans mais velhas se tornaram figuras maternas. “Elas me acolheram, me ensinaram a sobreviver e mostraram que eu não precisava enfrentar tudo sozinha. Também existe uma pessoa que está comigo em praticamente todos os momentos dessa caminhada, meu marido, Alex. Ele é meu grande amor, meu melhor amigo, meu sócio e, muitas vezes, meu assistente. É quem corre comigo de loja em loja atrás de tecido, quem acompanha cada etapa das produções e quem se estressa comigo quando aparece um cliente querendo uma roupa em um prazo impossível”, conta com carinho. 

No final de junho, Liz foi anunciada como finalista do 4º Desafio Sou de Algodão + Casa de Criadores, um concurso para estudantes de moda brasileiros que convida os participantes a criarem coleções autorais onde todas as peças devem ter no mínimo 70% de algodão em sua composição. A estilista, que já foi vice-campeã do Concurso dos Novos no Dragão Fashion Brasil em 2025 com a equipe da Universidade da Amazônia, apresentou o projeto “Colapso Amazônida”, em que discute a exploração do território e culturas amazônicas através da estética cyberpunk e do movimento Neo Cabano. “Eu sinto que estou levando comigo um pouco de cada pessoa que acredita que o Norte também pode ocupar esses espaços,” reflete.

Em seu release de coleção, a designer paraense explica que buscou transferir a luta do povo amazônico para a linguagem visual da moda. Em uma entrevista para o portal da universidade, afirmou que gostaria de provocar reflexões e alertar sobre os caminhos que estão sendo construídos. Ela usa de uma releitura distópica da Cabanagem, revolução popular que aconteceu na província do Grão-Pará no século XIX contra a violência e as condições de miséria às quais o povo era submetido, denunciando a destruição dos bens naturais da região e a exotização dos corpos locais. A produção que garantiu sua vaga na final foi batizada de “Memória Contaminada” e faz referência à poluição dos rios locais.

Sobre a sensação de ter seu trabalho reconhecido a nível nacional nesses dois concursos, Liz reflete: “Durante muito tempo, pessoas como nós foram ensinadas a acreditar que determinados espaços não eram para a gente, e eu acho que cada vez que uma pessoa nortista, uma pessoa trans, uma pessoa periférica consegue chegar mais longe, ela abre uma porta para que outras também possam sonhar!”, e acrescenta que já se sente uma vencedora independente do resultado: “Eu espero que a minha presença nesses espaços sirva para mostrar que nós existimos, que temos talento e que merecemos estar aqui! Essa vitória é minha, mas também é nossa.”

Os croquis da coleção apresentam peças estruturadas, volumes e recortes geométricos, e estampas coloridas, elementos que estão presentes em várias de suas criações, inclusive na coleção Human.exe, apresentada com cinco outras alunas do curso de moda e premiada com o segundo lugar do Concurso dos Novos no Dragão Fashion Brasil do ano passado, o maior festival de moda autoral da América Latina. Milena Silva, orientadora da estudante no Desafio Sou de Algodão + Casa de Criadores, chama ela de arquiteta da moda: “Porque ela pensa em uma estrutura para roupa, uma técnica não só de criação mas de como ela vai ser estruturada, como está projetada embaixo para ganhar toda aquela beleza,” explicou para a Rádio Unama FM.

A estilista também reconhece que, enquanto esses projetos são importantes para abrir portas e criar visibilidade para novos designers, ainda são necessários mais espaços a nível nacional. “Precisamos de políticas que acompanhem o estilista desde a formação até a profissionalização, para que um talento descoberto em um concurso tenha condições reais de construir uma carreira”.

Desfile Amazônia Sintética do Senac PA

Aos poucos, Liz Santos começa a estruturar aquilo que, até recentemente, ainda estava em processo de construção. Há cerca de cinco meses, abriu o próprio ateliê e agora quer fazer o espaço crescer, fortalecer a identidade de sua marca e ampliar sua atuação no mercado. O futuro que imagina não passa, porém, por escolher entre uma moda comercial e uma produção estritamente autoral; ela quer experimentar justamente o encontro entre as duas.

Hoje, Liz já trabalha com peças sob encomenda e figurinos para artistas. Gaby Amarantos, Gang do Eletro e Aqno estão entre os nomes para quem já criou. Foram experiências que, segundo ela, ampliaram sua própria maneira de enxergar a profissão. Daqui para frente, a intenção é continuar construindo uma marca que possa crescer comercialmente sem abandonar a pesquisa e a identidade que sustentam suas criações. Quando fala sobre até onde pretende chegar, a estilista não economiza na ambição. “Eu, como uma boa virginiana, quero dominar o mundo, levar todos comigo e fazer uma revolução Amazônida.”

Gaby Amarantos usando look da coleção HUMAN.exe

“Levar todo mundo comigo” talvez seja a parte da frase que melhor explique o futuro imaginado por Liz. Porque, mesmo quando fala dos próximos passos da carreira, seus planos dificilmente aparecem desvinculados do lugar de onde veio. Isso também vale para a formação. Ela pretende fazer uma pós-graduação e continuar estudando, pesquisando e desenvolvendo seu trabalho. Se puder escolher, diz que só para no doutorado. Seu objetivo é fazer com que criação autoral, mercado e pesquisa convivam em uma mesma trajetória. “Quero crescer como estilista sem deixar de ser uma pessoa que pesquisa, questiona e pensa a moda a partir da minha realidade e da Amazônia”, afirma. Liz encontrou até uma definição para esse lugar de fronteira: considera-se “artista demais para ser acadêmica e acadêmica demais para ser artista”.

Se o futuro pessoal passa pela consolidação do ateliê e pela continuidade dos estudos, o futuro da moda que Liz gostaria de encontrar é menos concentrado geograficamente. Ela fala em editais específicos para a moda, recursos destinados a criadores de diferentes regiões, programas de formação, residências, intercâmbios e espaços de produção que alcancem também o Norte e outras áreas historicamente menos contempladas por investimentos. A questão financeira aparece como um obstáculo especialmente concreto. Para participar de um grande evento longe de casa, um estilista em início de carreira precisa arcar com passagens, hospedagem, transporte de materiais, produção e equipe. Ser descoberto, portanto, não significa necessariamente ter condições de permanecer no mercado.

“A Casa de Criadores é importante porque abre portas e cria visibilidade. Mas precisamos de mais portas depois dela”, diz. Para Liz, políticas de incentivo deveriam acompanhar um estilista da formação à profissionalização, transformando a exposição conquistada em possibilidades reais de carreira. A descentralização que defende não significa apenas levar criadores nortistas aos grandes centros, mas permitir que eles possam produzir e crescer também a partir de seus próprios territórios.

No Pará, ela enxerga uma produção cultural, técnicas, materiais, artistas e uma identidade que já existem independentemente do reconhecimento do centro do mercado. O cuidado, para Liz, está em aproximar essa produção da indústria sem reduzir a cultura amazônica a uma “estética exótica para consumo externo”. É uma preocupação coerente com o futuro que ela desenha para si: crescer sem precisar diluir aquilo que torna seu trabalho reconhecível.

Talvez seja por isso que, quando Liz projeta os próximos anos, o singular rapidamente se transforma em plural. Há o ateliê que quer consolidar, o doutorado que gostaria de alcançar e o mercado que deseja conquistar. Mas há também uma ambição maior: que trajetórias como a sua deixem de depender da exceção. “Eu quero ver a moda brasileira sendo contada a partir de vários lugares”, afirma. “Quero que um estilista de Belém, Manaus, Recife, Salvador ou Porto Alegre tenha a mesma possibilidade de ser visto, investido e reconhecido.”

Coleção HUMAN.exe no Dragão Fashion Brasil

Para alguém que construiu sua moda imaginando novas possibilidades de futuro, talvez faça sentido terminar olhando justamente para ele. Liz quer dominar o mundo, como brinca, mas não parece interessada em chegar lá sozinha. Entre o crescimento do ateliê, a pesquisa acadêmica e a defesa de um mercado menos concentrado, seu projeto de futuro ultrapassa a própria marca. Afinal, como ela mesma resume: “a moda brasileira fica mais forte quando o Brasil inteiro participa dela”.

Matéria por: Gabriela Leonardi, Júlia Vianna e Laura Romero