Entre debates sobre a moda nacional, estamos deixando de lado nossa ancestralidade e os criadores indígenas?

Com o aumento da valorização de marcas brasileiras e o questionamento do que define a moda nacional, o espaço dado aos profissionais indígenas e marcas ancestrais ainda é discrepante

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O Dia Internacional dos Povos Indígenas é comemorado no dia 9 de agosto desde 1994, quando foi decretado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Essa e outras datas são uma forma de reconhecer as tradições dos povos originários e promover a conscientização sobre a sua inclusão na sociedade, o que se estende também no mercado da moda. Recentemente, o debate sobre a valorização da moda nacional tem ganhado força pelo sucesso da primeira edição do Rio Fashion Week e designers sendo reconhecidos país afora. Mas estamos dando essa mesma atenção para a moda ancestral e os profissionais indígenas? Se pensarmos na própria semana de moda carioca, que não teve um nome indígena presente no line-up, a resposta fica evidente. 

Uma publicação do Fashion Revolution, principal movimento global que desenvolve projetos e discussões em torno de uma moda sustentável, alertou no dia 9 de agosto deste ano sobre a necessidade de advogar pelo direito à liberdade criativa das pessoas indígenas (https://www.instagram.com/p/Db3iumjlgXY/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==). O fotógrafo Gustavo Paixão, que descobriu seu amor pela fotografia de moda por acaso na faculdade de Turismo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e atua em editoriais desde 2011, busca afirmar o protagonismo indígena e contribui com essa discussão: “Quando a gente não é famoso e não ganha notoriedade por nossa identidade, que é uma estética de vivência, é muito mais difícil de sobreviver dentro da indústria do que quando a sua identidade faz sucesso dentro do mainstream da moda”. Por isso, ele compartilha que, por conta da pressão estética do mercado, seu trabalho passou a aceitar propostas para além de sua identidade indígena. 

Outro exemplo de valorização da moda ancestral no Brasil é a Yanciã, marca de Elijane Nogueira que utiliza sementes, fibras e pigmentos naturais para criar peças que refletem uma narrativa de ética e regeneração. A amazônida se formou em Direito pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e no período que trabalhou na vara de Violência Doméstica e Familiar Contra Mulher do Tribunal de Justiça de Rondônia, se aproximou das questões de vulnerabilidades sociais, principalmente a violência de gênero. Migrando para o direito ambiental, Elijane conta que se aproximou dos processos produtivos da moda quando estudou na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC): “Foi lá que eu pude me aproximar da moda sustentável, fazer uma conexão com os nossos conhecimentos tradicionais, materiais, biomateriais e o artesanato que já existia, e conectar isso com a moda”. 

Campanha da Yanciã | Foto: Reprodução @yanciamazonia
Campanha da Yanciã | Foto: Reprodução @yanciamazonia

Criada em 2022, a empreendedora explica que o nome Yanciã foi escolhido pois Yaci é a deusa Lua da vitória régia, que surge da lenda do muiraquitã/icamiabas/amazonas, e a lua tem um arquétipo da intuição e dos saberes que não estão revelados. “Então, existe essa inspiração para honrar os conhecimentos porque eu percebia que o primor no fazer e nas artesanias eram das mais velhas, que sabiam tecer e como tratar uma semente. E as novas gerações, até por conta desses processos de fast fashion, de ter tudo muito mais fácil, das culturas que foram importadas, não queriam mais trabalhar com aquele legado das avós. Elas não viam aqueles trabalhos como algo a ser valorizado”. Com o desejo de resgatar os saberes das anciãs, a microempresa de Elijane trabalha de forma terceirizada, mapeando coletivos de artesãs no Amazonas para realizar coleções em parcerias e dando todas as informações de rastreabilidade da peça – quem produziu, de qual território e a matéria-prima utilizada – para dar um letramento ao seu consumidor. A dona da Yanciã também se capacitou na moda e artesanato para fazer uma curadoria de materiais mais diferentes e bem acabados “Para assim a Yanciã ser essa referência de artesanato de boa qualidade, com teste de pigmentação, pesquisa e desenvolvimento de tecnologia para os produtos”, explica. 

O apoio à moda ancestral e seus saberes

Para além da criação de marcas que sustentam a mensagem dos valores indígenas, o mercado da moda tem a possibilidade (muitas vezes ignorada) de empregar profissionais indígenas para a produção de campanhas, e Gustavo conta um pouco da experiência de ter trabalhado para grandes marcas brasileiras como Farm e Natura: “Eu acho extremamente importante quando nós temos marcas renomadas multinacionais trabalhando com talentos que não são tão conhecidos e reconhecidos na indústria da moda. Isso também indica o quanto nós somos capazes e talentosos de fazer qualquer tipo de trabalho que nos é pedido”. Para o fotógrafo, foi uma surpresa ter sido contratado para essas campanhas sendo um profissional que traz questionamentos sobre a relação do indígena com o mercado de trabalho dentro da arte e da moda. “Eu consegui ver um pouco de esperança e ao mesmo tempo tive medo, porque como não vemos pessoas como nós atingindo marcas tão grandes, fica essa responsabilidade de fazer nosso trabalho da melhor forma possível. E foi muito gratificante não só por ter um indígena protagonizando essas campanhas, mas também por ter vários outros dentro da equipe”, complementa. 

Campanha Farm | Foto: Gustavo Paixão
Campanha Natura | Foto: Gustavo Paixão

Em relação às grandes empresas da moda, Elijane acredita que esses conglomerados podem utilizar sua força para apoiar as pequenas marcas, observando o impacto que pode ser causado na moda nacional do ponto de vista da geração de renda: “Acho que temos um grande potencial para ter um setor nacional muito forte e um posicionamento global com boas práticas socioambientais”. Essa falta de apoio ainda dificulta a existência de marcas como a Yanciã em relação a estrutura de arranjos produtivos (como o mapeamento dos sistemas de manejo das fibras) e a percepção de valor. “Falta um pouco de cuidado, talvez, com esses empreendedores, né? No meu caso, não sou uma artesã mas trabalho com a base, eu sou do Amazonas, eu sou uma mulher amazônida e faço viagens pelo meu território muitas vezes de forma autônoma, porque não tenho incentivos para isso […] É um grande desafio essa estruturação do meu modelo de negócio, mas acho que tem um cenário positivo com editais de fomento que estão vindo para estruturar as cadeias e melhorar os nossos negócios”, contempla Elijane.

A moda nacional para além do óbvio

Gustavo analisa que há um movimento da moda nacional de trazer revolução e estagnação ao mesmo tempo, já que enquanto promove novos talentos pretos e indígenas, não dá para eles as mesmas oportunidades que são oferecidos a profissionais brancos. “Acho que ainda existe essa questão da moda em valorizar a cultura brasileira enquanto não valoriza os profissionais afro e índio brasileiros, porque isso cria uma questão muito problemática com relação a quem domina a estética da moda nacional e quem vai falar sobre ela”, reflete o fotógrafo, complementando que a problemática se entende pelos sacrifícios feitos por esses grupos minorizados para trazer sua estética à tona dentro da indústria da moda: “Pessoas brancas se apropriam dessas estéticas com muito facilidade de sucesso com aquilo devido ao seu capital social, então há uma imensa lacuna de protagonismo e narrativas; enquanto nós lutamos para sobreviver fazendo várias coisas ao mesmo tempo e fugindo um pouco daquilo que gostaríamos de fazer, criativos da área da moda que são brancos conseguem fazer sobre absolutamente tudo”. 

Campanha Farm | Foto: Gustavo Paixão
Campanha Farm | Foto: Gustavo Paixão

Elijane enxerga que a moda nacional está, sim, vivendo um período de valorização dos saberes tradicionais, mas que ainda existe muita apropriação e greenwashing: “A gente não vê de fato chegar o fortalecimento e empoderamento das comunidades, o letramento e os índices de progresso social, então acho que isso precisa estar atrelado para não ser uma onda de possibilidades para a Amazônia, que é onde eu trabalho”. Ainda assim, a fundadora da Yanciã acredita que pelo poder da educação, principalmente a nova geração está tendo mais acesso à informação, atrelado a políticas públicas, podemos estruturar um ecossistema que olhe para a moda ancestral. “Eu sou muito ativista no Amazonas, e dentro dos pequenos e médios negócios que trabalham com a socioeconomia na Amazônia nós tentamos nos fortalecer para ter uma visão sistêmica do processo de cultivo de biomateriais, de sementes e de fibras. Eu trabalho especificamente com produtos florestais não madeireiros, justamente porque eu olho para uma moda regenerativa que possamos cultivar, coletar, beneficiar e regenerar.

Top da Yanciã | Foto: Reprodução @yanciamazonia
Peças da Yanciã | Foto: Reprodução @yanciamazonia

A empreendedora reforça que é esse olhar de cuidado e regeneração que faz sua marca existir, e que segue sendo otimista com a valorização da moda indígena: “Eu acredito muito nessa capacidade de difundir boas práticas e assim fazer com que mais negócios focados em impactos socioambientais progridam. Não só o negócio pelo lucro, mas que possamos estar resgatando, valorizando e promovendo esses conhecimentos tradicionais e gerando cada vez mais impactos positivos para o nosso país”. Em contraponto, o fotógrafo analisa que a questão da valorização da cultura indígena está mais atrelada a uma fase comercial, o que se reforça pela diminuição desse debate no mercado da moda, mas reforça: “Enquanto a moda mainstream está ignorando a nossa existência, os indígenas estão falando por outros meios, dando palestras, falando sobre suas experiências em livros e artigos. Estamos atuando de várias outras formas para conscientizar as pessoas sobre o nosso protagonismo, a nossa narrativa e a nossa existência enquanto seres intelectuais que possuem liberdade de manifestação artística”.