Se há um fato incontestável no mercado de luxo é que, desde que nas últimas décadas os conglomerados se estabeleceram e compraram quase todas as grandes grifes, não importa quem está ocupando a direção criativa, contanto que o lucro seja perceptível. 2025 foi o ano em que presenciamos a maior quantidade de estreias de diretores criativos nas maisons de luxo desde o final dos anos 90, e parece que 2026 quer dar continuidade à esse cenário.
O cenário da moda atual também reflete a constante urgência de novas tendências, o que impacta diretamente no trabalho de quem está à frente das grandes marcas. Se na metade do século XX, período em que a alta-costura estava em seu auge, os donos das maisons permaneciam nos cargos até a aposentadoria ou morte, hoje isso não é mais algo linear. Os atuais diretores criativos precisam estar alinhados com as demandas do mercado e a necessidade de inovação a todo momento, e mesmo assim sempre há a chance da dança das cadeiras os atingir. Por isso, montamos um compilado para você entender as últimas movimentações no setor.
Saída de Marco de Vincenzo da Etro
O designer Marco de Vincenzo teve a sua saída anunciada no dia 12 de março, logo após apresentar sua coleção outono/inverno 2026 na Milan Fashion Week (MFW). De Vincenzo chegou à Etro em 2022 após ter trabalhado na Fendi. Também italiana e conhecida por estar sempre alinhada aos seus códigos, as coleções do então diretor criativo exploravam o DNA maximalista, boêmio e artesanal. O comunicado oficial afirma que a decisão foi tomada em comum acordo e que “alinha-se com uma nova fase estratégica para a marca”. A empresa tem passado por diversas mudanças nos últimos anos, incluindo a saída da família fundadora em dezembro de 2025 depois de um grupo de investidores liderado pela Rams Global (em conjunto com Mathias Facchini, da Swinger International, e Giulio Gallazzi, através da SRI Group) ter adquirido a participação minoritária correspondente. Quem segue como acionista majoritário desde 2021 é a multinacional americana L Catterton.




Saída de Harris Reed da Nina Ricci
No dia 11 de março o designer Harris Reed anunciou em seu Instagram que estava saindo da direção criativa da Nina Ricci, menos de uma semana após apresentar a coleção outono/inverno na Paris Fashion Week (PFW). No cargo desde 2022, Reed trouxe uma visão contemporânea e de fluidez de gênero para a grife francesa, e ele afirma no post que agora irá focar no crescimento de sua marca homônima “Quando cheguei, tinha 26 anos, havia me formado recentemente e ainda estava me encontrando. Hoje, deixo a etiqueta tendo aprendido e crescido muito”. A marca pertence ao conglomerado espanhol Puig desde 1998, e a presidente Ana Trias expressou gratidão pelo trabalho feito nos últimos anos pelo britânico. Assim como na Etro, ainda não há previsão para anunciar quem ocupará a direção criativa da Nina Ricci.




Estreia de Antonin Tron na Balmain
A PFW teve como única estreia a do estilista francês Antonin Tron na Balmain, no dia 04 de março. Com uma coleção que reflete bem o DNA sensual da marca recheado de animal print e power dressing, Tron contou à Vogue Business que estudou bastante a história do fundador da maison Pierre Balmain: “Você chega a uma casa que tem 80 anos e há muitos fantasmas. Todo mundo tem uma opinião sobre o que a Balmain deveria ser; é preciso lidar com os fantasmas e não afastá-los”. A chegada de Antonin na direção criativa da grife foi anunciada em novembro do ano passado, sucedendo Olivier Rousteing, que ficou no cargo por 14 anos e foi o primeiro homem negro a ocupar a direção criativa de uma etiqueta tradicional. Trazendo grandes inovações através de suas coleções, em sua saída Olivier agradeceu os CEOs do Fundo Mayhoola, que detém o controle majoritário da Balmain desde 2016 – grupo que também controla a Valentino.




Despedida de Pieter Mulier na Alaïa
Também nesta temporada de Paris, outro evento que movimentou o mundo da moda foi a coleção de despedida de Pieter Mulier na direção criativa da Alaïa. Após ocupar o cargo por cinco anos e reposicionar a marca no mercado de luxo, o designer belga assumirá a frente da Versace e apresentará a sua primeira coleção para a icônica grife italiana em julho. Pieter iniciou sua carreira como braço direito de Raf Simons e esteve ao seu lado em cargos na Jil Sander, Dior e Calvin Klein, e quando chegou à Alaïa em 2021 buscou renovar a maison sem deixar de lado o legado construído desde a sua fundação na década de 60. O grupo Richemont, que controla a marca desde 2007, ainda não anunciou quem será o novo diretor criativo que terá o desafio de manter a Alaïa no radar fashion.




Estreia de Maria Grazia Chiuri na Fendi
No dia 25 de fevereiro a MFW foi palco da coleção de estreia de Maria Grazia Chiuri na Fendi. Anunciada pelo grupo LVMH para o cargo de diretora criativa em outubro de 2025, na verdade a estilista está retornando à casa italiana, onde trabalhou no departamento de acessórios por uma década junto de Pierpaolo Piccioli – sendo responsáveis por criar a icônica bolsa Baguette. Sua nova posição na Fendi veio com bastante expectativa devido ao seu vínculo já existente na grife, além da popularidade que conquistou nos seus quase dez anos como diretora criativa da Dior. Sua coleção traz bastante de sua identidade com roupas práticas e soltas, e a estilista, conhecida por pautar mensagens feministas, acaba homenageando também a história da Fendi, que apesar de ter sido fundada pelo casal Alda e Edoardo Fendi ganhou mais notoriedade sob o comando das cinco filhas.




Estreia de Maryll Rogge na Marni
MIlão também teve outra estreia um dia após a coleção de Maria Grazia na Fendi. Maryll Rogge apresentou suas primeiras peças à frente da direção criativa da Marni, meses depois do anúncio de sua chegada à grife. Ela sucede a posição antes ocupada por Francesco Risso, que ficou durante uma década e que apesar da estabilidade, não resistiu no cargo quando a Marni apresentou uma queda de vendas no ano de 2024. O grupo OTB, que detém as ações majoritárias da Marni desde 2015, também fez movimentações recentes em outras marcas pertencentes, como a chegada de Simone Bellotti na Jil Sander e Glenn Martens na Maison Margiela. Única diretora criativa entre as marcas da OTB, Maryll disse na época de sua chegada que estava honrada em se juntar à Marni, “uma casa que tenho admirado há muito tempo por seu espírito independente”.



