Corpos não são tendências a serem seguidas, ou pelo menos não deveriam ser. Mesmo assim, a indústria da moda insiste em tratar a inclusão de corpos plus size apenas como uma cota. Inclusão essa que segue mínima ou tem seu número diminuído com o passar das temporadas.
No relatório da Vogue Business sobre a temporada feminina de Primavera/Verão 2026, dos 9.038 looks apresentados em 198 desfiles, apenas 0,9% eram de tamanhos plus size. Além disso, em comparação com a temporada anterior, o número de looks em tamanhos médios caiu pela metade.

Gucci F/W 26 / Reprodução: TagWalk
Ainda de acordo com uma entrevista da Vogue com consumidores que vestem tamanhos médios e plus size, os entrevistados afirmaram se sentir esquecidos pelas marcas de moda, principalmente pelas de luxo. Somado a isso, quase metade deles relatou sentir pressão para perder peso para estar na moda.
Apesar das marcas de fast fashion trazerem à tona diversas discussões, principalmente relacionadas à sustentabilidade, são nelas que os consumidores encontram seus tamanhos com mais facilidade. Quanto às marcas de luxo, metade dos entrevistados pela Vogue Business acredita ter menor chance de encontrar seus tamanhos.
Se você ainda acreditava que o problema se limitava às passarelas femininas, os números da temporada masculina chegam para desfazer essa ilusão. A Vogue Business também realizou um relatório sobre a temporada masculina de Outono/Inverno 2026, mostrando que, dos 2.523 looks apresentados em Milão e Paris, apenas 0,2% foram exibidos em modelos plus size, e a porcentagem de looks em tamanho padrão teve um aumento em comparação com a temporada anterior. No lugar, um aumento de modelos extremamente magros.

Yohji Yamamoto F/W 26 / Reprodução: TagWalk
Apesar dos dados desanimadores, ainda há designers que não tratam a inclusão como um movimento pontual, com destaque especial para Karoline Vitto. Em meio à exaltação da magreza extrema e ao uso indiscriminado de canetas emagrecedoras, a designer mostrou em seu desfile que corpos reais não deixaram de existir e não vão a lugar algum. De volta à Semana de Moda de Londres, realizada entre os dias 19 e 23 de fevereiro, Vitto apresentou sua coleção de Outono/Inverno 2026.
O release da coleção intitulada “Thaw” (Degelo) começa com um questionamento: “Para onde foram todas as modelos curvilíneas?” e logo em seguida traz uma provocação ao expor que a diversidade de casting não deve ficar a cargo de um ou outro designer. A Semana de Moda de Londres é a mais inclusiva em termos de tamanhos dentre as maiores fashion weeks, mas esse título se deve principalmente aos estilistas independentes que reconhecem a importância da diversidade.

Karoline Vitto F/W 26 / Reprodução: TagWalk
Karoline Vitto é uma marca de roupa feminina que faz questão de colocar o corpo no centro de seu processo de criação, celebrando as curvas por meio de silhuetas esculturais, estruturas metálicas e drapeados. Para Vitto, a inclusão nunca foi algo simbólico. A designer cria peças que valorizam o corpo e celebram as curvas com sensualidade e intenção.
Natural do Brasil, Karoline integra o line up do Rio Fashion Week 2026, que acontece de 15 a 18 de abril, fazendo sua estreia no calendário brasileiro de moda. A chegada de Vitto não poderia ser mais simbólica. Em um país onde o mercado de moda plus size movimenta bilhões, sua estreia é um lembrete de que a moda brasileira tem a oportunidade de conduzir uma conversa que as grandes capitais da moda ainda se recusam a ter de verdade.