Desde 2024 o mercado da moda viu uma movimentação sobre a volta do estilo boho, desta vez denominado ‘boho chic’. Em um século dominado pela diversidade e volatilidade das tendências, não apenas na moda mas em outras esferas da sociedade, entenda como o retorno da estética boêmia reflete um cenário similar ao de suas raízes no século XIX.
A WGSN, líder global em antecipação de tendências de consumo, havia sinalizado há dois anos um aumento de 9% no número de postagens relacionadas ao tema Boho. Além disso, já se via um crescimento de visualizações em vídeos com a hashtag Boho no TikTok, que hoje é uma das plataformas mais influentes no comportamento do consumidor.
O retorno do boho nas principais semanas de moda confirmou a tendência, com destaque para as coleções de Saint Laurent, Chloé, Isabel Marant, Etro e Valentino, que viralizaram nas redes sociais e se tornaram desejo de consumo. Consequentemente, as marcas brasileiras também moldaram suas coleções para atender essa demanda, como a Maria Filó, Animale e Bo.bô, além das grandes fast fashion.




Uma publicação da WGSN explica que “os consumidores procuram um modo de vida mais despreocupado e desestruturado e expressam sua individualidade através da estética boho”, um comportamento contrário ao movimento “clean girl” e o minimalismo presente nas últimas temporadas. A tendência boho chic tem como características roupas fluidas e com movimento, tecidos naturais, texturas marcantes, estampas florais e étnicas e forte apelo artesanal (incluindo os acessórios). Essa desconstrução, embora de forma muito mais polida, reflete a essência do estilo boêmio que surgiu, na verdade, no século XIX, e que se firmou na moda durante a década de 70.
As raízes do estilo boho
Boho é uma derivação da palavra boêmia – que vem do francês bohémiens – e foi um termo usado originalmente para descrever os povos nômades (especialmente os Romani), pois acreditava-se que eles haviam chegado da região boêmia da Europa Central. Na moda, sua história remete aos artistas e intelectuais franceses do século XIX que renegavam vestimenta estrita e elaborada da época, e que por terem um estilo de vida inconvencional foram intitulados boêmios.

Décadas se passaram e o termo voltou a ganhar força na década de 60, quando a geração jovem decidiu romper com o conservadorismo pós 2ª Guerra Mundial e outras normas estabelecidas (não à toa foi o momento do declínio da Alta Costura e a ascensão do prêt-a-porter). As peças desconstruídas, leves e marcadas pelo artesanato e estampas florais refletiam o estilo de vida dos que faziam parte do movimento de contracultura – um paralelo aos precursores do estilo boêmio do século anterior. Já nos anos 70, essa estética chegou nas celebridades e grandes designers de moda combinada a um viés glamuroso, passando a ter um forte apelo comercial.


Nos anos 90 o boho esteve presente em coleções da Gucci de Tom Ford, Anna Sui e Isabel Marant, dessa vez com toques do movimento grunge, que era uma das maiores tendências da época – e que surgiu com o mesmo DNA de contracultura visto no estilo boêmio. O boho permaneceu ao longo dos anos 2000, sendo parte do guarda-roupa de ícones fashion como Kate Moss e Mischa Barton, e na década de 2010 também ressurgiu com elementos da moda hippie, tornando-se uma estética característica de festivais, principalmente o Coachella.


A volta do boho reforça como a moda é cíclica e um reflexo dos comportamentos da sociedade, e neste momento ela se impõe como uma estética símbolo de otimismo, liberdade e romantismo.