O Museu de Arte do Rio (MAR) recebeu a exposição “Òkòtó: Espiral da Evolução” entre dezembro de 2025 e abril deste ano, dedicada ao trabalho da artista e designer Goya Lopes. A baiana de 72 anos possui mais de cinco décadas de carreira e é uma das pioneiras da moda afro-brasileira, tema que ganhou mais valorização nos últimos anos.

Nascida em Salvador (Bahia), Goya conta que a paixão pela arte foi despertada por sua professora aos sete anos, que disse aos seus pais que ela tinha um desenho diferenciado que precisava ser estimulado. Ela se graduou pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e após terminar o curso conversou com um professor que a aconselhou a seguir o design: “Eu estava em busca de algo mais prático para me inscrever em uma bolsa de estudos para a Itália, e ele sinalizou: ‘faça design, é a profissão do futuro’”.

Após se especializar em Design, Expressão e Comunicação Visual na Universitá Internazionale Dell’Arte di Firenze, na Itália, Goya passou a trabalhar com arte e moda para algumas marcas no Brasil. Foi a partir de 1986, ainda no início de sua trajetória profissional, que ela destaca um dos momentos mais importantes de sua carreira, a criação da empresa Didara e a marca Goya Lopes Design Brasileiro. “Fui precursora com uma marca autoral que tinha o propósito de divulgar a cultura afro-brasileira com arte. E até então, as pessoas não colocavam essa moda no cotidiano”, afirma a designer.
O conhecimento de Goya em relação ao design e arte, junto à inspiração da cultura baiana, são traduzidas em peças únicas que pavimentaram a necessidade da moda brasileira ser mais do que uma reprodução da estética eurocentrada. O curador-chefe do MAR, Marcelo Campos, expressa a importância da exposição: “Goya é muito precursora do lugar do orgulho negro dentro da história brasileira e, sobretudo, também é uma das mais importantes artistas negras da década de 1970 a estar na Escola de Belas Artes da Bahia”.




Goya reflete sobre a oportunidade de ter uma exposição dedicada à sua carreira em um momento em que o Rio de Janeiro (onde o museu está localizado) está recebendo ainda mais turistas de dentro e fora do país: “Fico muito contente em saber que consegui construir uma trajetória bem sedimentada, que criei marcas com uma identidade bem definida e um trabalho nas artes visuais com reconhecimento do público e do mercado”.




O discurso defendido por Goya da valorização de uma moda representativa foi, por muitos anos, ignorado no Brasil. Hoje, vemos marcas e criadores tendo mais cuidado ao abordar essa e outras pautas sociais, mas a artista sente que ainda há uma superficialidade no mercado da moda. “Esse discurso ainda não alcança o tripé – produção, distribuição e marketing positivo. O marketing é sempre pontual, deixando pouca competitividade e monetização em um mercado acirrado como é o da moda brasileira”, explica. Por isso, a designer finaliza com a expectativa de que, nos próximos anos, esse tripé seja alcançado e ajude quem está buscando espaço através de uma narrativa plural e autoral, como designer baiana fez anos atrás.