É inspiração ou é cópia?

Onde começa um e se torna o outro e porque precisamos falar sobre isso?

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Reprodução Chanel e Isabela Capeto

Realmente, não dá para inventar a roda, mas será que não se pode criar formas diferentes dela?

Na faculdade de moda, eu tinha uma professora que dizia: “Por que você quer colocar mais uma blusinha no mundo, o que ela tem que as outras não tem?” E assim começava um processo criativo para uma coleção com o objetivo de não ser apenas mais uma no mundo. 

A discussão que vem acontecendo nesses últimos dias já tomou diversas ramificações – Empresários vendo o ponto de vista da venda, aspirantes vendo o ponto de vista da tecnologia têxtil, jornalistas vendo o ponto de vista social e estilistas defendendo suas escolhas – mas todos partem da mesma premissa: Moda Nacional e identidade. 

Cópia é imitação ou reprodução de uma obra original; Imitação fraudulenta; plágio. Inspiração, vem de inspirar que segundo o dicionário é animar ou estimular a criatividade e a vontade de criar através da força de ânimo, da inteligência, da beleza; Exercer ou receber influência; basear-se, guiar-se, modelar-se.

OU SEJA;

Inspiração é mais subjetiva, é uma ideia que vem de algo concreto ou não. Exemplo: Uma coleção inspirada nos anos 20 ou inspirada no rococó ou inspirada nas peças de Paul Poiret como foi o caso da última coleção masculina da Dior.

Reprodução Dior

Já a o cópia é algo concreto, é uma reprodução que não passou pela ideia, foi logo ao objetivo (de gerar desejo, de vender). A cópia precisa ser levada a sério principalmente quando falamos de propriedade intelectual, originalidade e exclusividade. 

Reprodução: camifashiontips_parecidinho

O Brasil é um país onde a desigualdade social é tão grande e pertencer a elite é algo tão desejado que todo mundo faz o que pode para conseguir pelo menos um cantinho. As compras de réplicas já estão sendo normalizada, pois como diz Michel Alcoforado em seu livro Coisa de Rico “Uma bolsa Chanel as cinco horas da manhã, no braço de uma trabalhadora doméstica, nas estação da luz, no centro de São Paulo, será falsa mesmo se a dona tiver prova de que comprou em uma loja da maison” ao passo que uma bolsa falsa em uma festa nos Jardins jamais será questionada. 

Com as marcas, não é diferente, as cópias vem do objetivo de gerar desejo a quem já pertence e para quem quer pertencer. 

E a internacionalização, existe? 

Recentemente li um livro chamado Ressentimento da psicanalista Maria Rita Kehl em que ela diz “a busca de identidade, na sociedade brasileira, nunca cessa (…) se perde na demanda de reconhecimento do nosso valor por parte das nações mais poderosas” 

Ou seja, o Brasil ainda possui aquela necessidade de validação exterior tentando se igualar aos ideais europeus (o que fazemos desde a colonização) ou vender uma estetica que representa um número ínfimo de brasileiros. 

Conclusão, é possível se inspirar sem copiar, o importante é pensar o porquê de criar e pra quem criar. Um exemplo muito bom é a Shauer e sua calça jeans INSPIRADA nas calças jeans japonesas, eles não inventaram a calça jeans (Levi Strauss e Jacob Davis fizeram isso em 1873) mas eles reinventaram a calça jeans através de uma ideia para o público brasileiro. É possível usufruir de toda manualidade existente no Brasil sem colocá-las em um desenho ou modelo gringo, isso a PatBo faz muito bem e exporta para diversos países! 

Reprodução Shauer

Aos estilistas que estão se sentido atacados pelas críticas, assumam a inspiração (a cópia nunca será admitida por questões judiciais que ninguém quer se responsabilizar) estudem as tendências presentes no seu público alvo e pensem que vocês não precisam copiar uma saia da Chanel para fazer um trabalho impecável, digno de capa de revista, para se firmarem na moda brasileira, vocês SÃO a moda brasileira, pois como diz Herchcovitch “moda brasileira é feita por brasileiros” .