A Semana de Alta-Costura Primavera/Verão 2026 aconteceu entre os dias 26 e 29 de janeiro em Paris, tendo a presença de convidados seletos. Com as estreias de Matthieu Blazy na Chanel e Jonathan Anderson na Dior, as coleções apresentadas nas outras semanas são essenciais para movimentar o setor da moda, mas esta se diferencia por exaltar pontos importantes da história do luxo: o trabalho manual, a tradição e a exclusividade.
Como surgiu a alta-costura?
No século XIX, o inglês Charles Worth se mudou para Paris com o objetivo de dominar a cena da moda parisiense – que na época já ditava o que o restante do mundo deveria vestir. Até a chegada de Worth, as mulheres da classe alta davam todas as orientações à modista sobre a peça encomendada no ateliê – cor, tecido, bordado e outros detalhes que seguiam o padrão vigente da sociedade.
Charles Worth se viu cansado desse cenário. Afinal, não faria muito mais sentido ele, com tantos anos de experiência em ateliês aprendendo tudo sobre moda, ser o único responsável por criar o que seria vestido por suas clientes? Com essa ideia em mente, em 1858 ele abriu sua maison (se tornando a primeira marca de moda da história) e produziu vestidos deslumbrantes que fariam toda a sociedade francesa procurá-lo. Nessa etapa, sua esposa Marie foi essencial, pois desde a época em que trabalhavam juntos em outro estabelecimento ela era a responsável por modelar as peças às clientes. Marie saía pelas ruas com e ia aos eventos sociais com os vestidos de Worth, e gradativamente foi fisgando a curiosidade de mulheres importantes da cena parisiense, incluindo a imperatriz Eugênia, esposa de Napoleão III.
A carreira de Worth deslanchou e com o passar dos anos ele se tornou o responsável por lançar as tendências da moda e, consequentemente, estimular o crescimento do mercado de luxo. Ele também foi o precursor de feitos como a criação de desfiles com modelos de carne e osso, a delimitação de um calendário “fixo” para apresentar suas criações (a cada virada de estação) e a implementação de etiquetas em suas peças que garantiam autenticidade e exclusividade.


O “pai da alta-costura” evidenciou as costureiras, modelistas e alfaiates não mais como simples prestadores de serviços, e sim artistas que poderiam lançar tendências com suas criações. Em 1868 ele e outros donos de maisons fundaram a Chambre Syndicale de la Couture des Confectionneurs et des Tailleurs pour Dame, uma entidade que defendia os interesses dos profissionais da moda francesa. Atualmente ela faz parte da Fédération de la haute couture et de la mode, organização responsável por toda a indústria de moda francesa e que estabelece os calendários da semana de moda – tanto prêt-à-porter quanto alta-costura.
Alta-costura x prêt-à-porter
Nas décadas seguintes à ascensão de Charles Worth surgiram outros nomes consagrados da alta-costura em Paris como Gabrielle Chanel, Paul Poiret, Elsa Schiaparelli, Christian Dior e Cristóbal Balenciaga. O termo, inclusive, é legalmente protegido pela Federação da Alta-Costura e da Moda desde 1945. Por isso, não é qualquer marca que pode se apropriar do status, devendo atender diversos critérios como: possuir um ateliê no Triângulo de Ouro, em Paris; ter uma equipe exclusiva para a confecção totalmente à mão das peças de alta-costura e apresentar coleções duas vezes ao ano (conforme o calendário oficial).


O surgimento do prêt-à-porter na década de 60 transformou o setor da moda de luxo de forma definitiva. A nova geração de consumidores era majoritariamente jovem e tinha o desejo de quebrar tradições, algo muito vinculado à alta-costura. Além disso, a ideia de comprar rapidamente uma peça disponível em vários tamanhos por causa da produção em larga escala passou a ser mais atrativa do que ter que esperar semanas por uma peça sob medida. Gradativamente os donos das maisons entenderam a necessidade de se adaptar a esse novo mercado, que inclusive era mais lucrativo e não precisava do alto investimento que a alta-costura demandava. Alguns designers, como Cristóbal Balenciaga, preferiram se aposentar ao invés de sucumbir ao conceito de “moda pronta”.
O que a alta-costura representa hoje
Mesmo com essa mudança drástica no setor da moda, entendeu-se a necessidade de continuar com coleções sazonais de alta-costura para preservar o legado desse modelo de negócios que perdurou por um século e que melhor representa a excelência demandada na criação de uma peça. Hoje, são poucas as grifes que se apresentam na Semana de Alta-Costura, já que além de atender os critérios mencionados anteriormente, elas devem ter um grande poder aquisitivo para investir em coleções não comerciais.
Estima-se que atualmente existam cerca de quatro mil clientes na alta-costura, de acordo com dados de 2024 do Market Reports World, reforçando a exclusividade vinculada à esse mercado – afinal, uma única peça pode chegar na casa das centenas de milhares de dólares. Justamente por não haver a necessidade de criar tendências para o resto do setor da moda e gerar rentabilidade, muitas coleções de alta-costura focam em apresentações artísticas – dramáticas, até – com tecidos da mais alta qualidade, bordados exclusivos do trabalho manual e peças luxuosas.




A alta-costura começou com Charles Worth para inovar a história da moda, e hoje ela persiste evidenciando até onde vai a criatividade e talento dos designers.
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