“Pecadores”: uma produção onde a história fala através da moda

Na disputa para levar o Oscar de Melhor Figurino, o filme utiliza o horror para explorar a construção social do Sul dos Estados Unidos

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Quem um dia ousou dizer que terror e política não se misturam, deve ter se arrependido assim que deu play em “Pecadores”. Dirigido por Ryan Coogler, o filme se tornou o mais indicado da história do Oscar e nos leva a refletir sobre sistema e ancestralidade em um mundo onde vampiros são tão reais como o dispositivo que está em sua mão agora, mas essa ainda é uma explicação muito rasa. Então, enquanto a cerimônia do Oscar se aproxima (marcada para o dia 15 de março) a Redz. mergulha de cabeça nas obras que vem disputando o prêmio de Melhor Figurino, até porque nós sabemos como eles são mestres em contar uma boa história.

A trama além dos vampiros

Estamos em 1932, Delta do Mississippi (EUA), durante a Grande Depressão e um período marcado por uma intensa segregação racial. Somos apresentados aos gêmeos Fumaça e Fuligem (Michael B. Jordan), que acabaram de voltar à cidade com o objetivo de abrir um clube de blues. No meio dos preparativos para a inauguração nós conhecemos outros personagens que são tão importantes quanto, e o contexto social da época vai se desenrolando assim, sem pressa e combinando referências históricas, culturais e até mesmo espirituais.

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@haileesteinfeld

Annie (Wunmi Mosaku) é uma mulher que carrega saberes do Hoodoo e apresenta camadas do matriarcado na comunidade negra que revelam o poder da ancestralidade e da fé, elementos que também ajudam a apresentar uma outra face de Fumaça. O casal havia perdido seu único filho. O luto, a frieza, a postura e o ar de maturidade que sobressai o do irmão não são por acaso, e seu figurino também reflete isso. Veja o figurino de ‘Avatar: Fogo e Cinzas’ aqui!

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“Pecadores” é um filme que usa a natureza caótica dos vampiros como uma luz no túnel que atravessa o horror da história dos EUA, seja para falar de racismo, apropriação cultural ou a origem do blues. “Eles gostam da música, só não gostam de quem faz”, conta Slim (Delroy Lindo).

Enquanto tudo parecia bem, Remmick (Jack O’Connell), um vampiro irlandês, transforma dois membros da Ku Klux Klan e encontra uma oportunidade de se aproximar de seus ancestrais se apropriando do talento musical de Sammie (Miles Caton), primo dos gêmeos. Por trás disso, o filme busca explorar esse ciclo onde um grupo que já foi oprimido repete a mesma violência contra outros porque, durante séculos, a Irlanda também sofreu com a colonização com os britânicos. É assim que o verdadeiro terror começa.

O figurino

Assinado por Ruth E. Carter, parte do figurino de “Pecadores” foram criados para o reboot de “Blade”, uma produção da Marvel que acabou sendo adiada. Carter já venceu o Oscar por seu trabalho em Pantera Negra (2019) e Pantera Negra: Wakanda Forever (2023), se tornando a mulher negra mais indicada à premiação.

Tudo foi feito à mão, e durante a construção das peças, Ruth se baseou em registros históricos dos anos 1930, dos trabalhadores daquela época, dos músicos que deram vida ao blues e até mesmo da sua infância quando morou no Sul dos Estados Unidos. Em uma entrevista para a A Rabbit’s Foot, ela conta: “sempre senti que essa história era mais sobre o seu tempo do que sobre a trama de vampiros […] ‘Pecadores’ é a história do Sul.”

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As cores vermelho e azul foram cruciais para diferenciar Fumaça e Fuligem, além do chapéu, gravata, boina e o lenço; são acessórios simples, mas que dão um ar diferente entre eles. As texturas e a escolha dos tecidos também se alinham com a história e o estilo de vida dos personagens. Veja o Carnaval como a Alta-Costura brasileira aqui!

Podemos usar de exemplo o visual de Annie. Seu vestido não é feito para ser bonito, ele precisa ser prático e funcional, da mesma forma que carrega símbolos de força e resistência. Ela é respeitada, sabe qual caminho seguir quando encara um conflito, e os demais apenas seguem.

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“Isso não é fantasia, é a memória se tornando visível”, disse Ruth E. Carter em seu canal no YouTube. A figurinista se preocupou em adicionar alguns detalhes conforme o avanço das gravações, como manchas aparecendo na roupa em determinadas cenas, se aproximando ainda mais da realidade e reforçando que eles estão vivendo, trabalhando e se movimentando.

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A obra consegue transmitir e abraçar algo que já gritamos há algum tempo, que a história da comunidade negra não nasceu na época da escravidão. Quando Sammie começa a tocar seu violão no clube, e nós somos levados a uma espécie de ‘viagem no tempo musical’, a proposta de Ryan Coogler fica ainda mais clara. Eles dançam, cantam e se divertem, o figurino acompanha se movimentando na mesma intensidade. E por algumas horas, eles eram livres.

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