Flores para uma coleção de primavera? Se para alguns isso poderia ser uma escolha sem graça, Jonathan Anderson prova o contrário ao nos levar a um jardim repleto de tradição e inovação. No primeiro dia da Semana de Alta-Costura Primavera/Verão 2026, o diretor criativo apresentou a sua coleção de estreia para a Christian Dior no Musée Rodin, em Paris.
Os convites para o desfile e as prévias postadas nas redes sociais já indicavam que flores seriam o elemento central da coleção, e um dos fatores foi a visita de John Galliano à maison no ano passado. O britânico, que revolucionou a Dior nos quinze anos em que esteve à frente das coleções, presenteou Jonathan com um ramalhete de cíclames e disse: “Quanto mais você ama a marca, mais você receberá dela em retorno”. O encontro impactou o estilista irlandês de tal forma que a planta nativa da Grécia foi entregue à cada convidado e também estava pendurada aos montes no teto da passarela – e claro que Galliano esteve na primeira fileira para prestigiar o colega.
Mas as flores são algo que vão muito além desse episódio recente na maison Dior. O fundador Christian Dior cresceu em uma casa abastada em Granville (Normandia), e foi nela que ele ajudou por tantos sua mãe a cultivar um jardim com as mais variadas espécies de flores. Logo ele também se tornou um entusiasta da botânica, e o artigo da paisagista Elizabeth Tyler disponibilizado pela Vogue britânica contextualiza que o “New Look” de Dior surgiu não apenas para acentuar a figura feminina mas também para remeter à anatomia botânica: “Desenhei ‘mulheres-flores’, ombros suaves, cinturas finas como lianas e saias amplas como corolas”, explicou Christian Dior.

Décadas depois, chegou a vez de Jonathan Anderson incorporar a botânica em suas criações, dessa vez com um toque experimental que marcou seu trabalho nos onze anos como diretor criativo da Loewe – marca espanhola que teve um boom nas vendas sob o seu comando e se tornou uma das mais desejadas nas últimas temporadas. Há uma continuidade de looks que apareceram na sua coleção de estreia em outubro do ano passado, dessa vez com a saia alongada, mostrando a intenção do diretor criativo em manter uma identidade alinhada com o tema central de cada temporada.




Um dos maiores destaques da assinatura de Anderson são as formas estruturais de suas peças, com saias volumosas que chegam a lembrar esculturas e mangas volumosas que são, ainda, adornadas com plumas que seguem a estética botânica da coleção.




Algumas peças podem parecer casuais para uma coleção de alta-costura, mas é justamente essa a intenção de Anderson – dar a oportunidade de sua cliente de nicho utilizar uma peça aparentemente simples, mas que é inteiramente feita à mão com tecidos da melhor qualidade.




A paleta de cores tem como base o preto (muitas vezes combinado ao off-white e bordados coloridos), azul e laranja. Se em algumas peças as referências à jardins estão explícitas – com vestidos estruturados como pétalas e outros inteiramente bordados com flores), outras tem detalhes mais suaves e que, ainda assim, estão em sintonia com o todo.




Os acessórios são outro espetáculo artesanal – e botânico – à parte. Os brincos são flores chamativas, mas femininas, os sapatos também possuem flores bordadas ou couro que remete à folhas, e uma das bolsas é, inclusive, uma joaninha. Para algumas dessas peças o designer utilizou do upcycling (incorporação de resíduos que seriam descartados para criar novas peças) ao buscar tecidos franceses do século XVIII que foram restaurados e bordados nas bolsas e saltos.




O vestido de noiva que, seguindo a tradição da alta-costura, fecha o desfile, é uma confirmação de que Jonathan Anderson está mais do que apto à comandar a maison Dior. Ele segue o legado de Christian Dior, homenageia uma de suas paixões e junta isso ao seu próprio DNA criativo. Oras, se até mesmo John Galliano compareceu à um desfile da Dior pela primeira vez como convidado, quem somos nós para não dar o mesmo apoio?



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